A sua pesquisa
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Em meados do século XX, a Psicologia Clínica, e, particularmente, a Psicoterapia, se fortaleceram como práticas da Psicologia no Brasil. Registros históricos desvelam aspectos da conformação de tal campo, sobretudo pela presença de profissionais de diferentes áreas do Campo Psi – e.g., psiquiatras, psicólogos e psicanalistas –, os quais estariam envolvidos em controvérsias relativas aos aspectos legais, metodológicos, de aplicação, no intuito de solucionar problemas de ajustamentos. Essa pesquisa propõe a construção de uma narrativa historiográfica do campo Psi a partir de um de seus atores, a saber, Elso Arruda. Acreditamos que analisar os debates no campo Psi, sobretudo da personagem, propicia-nos revelar aspectos da conformação da Psicologia Clínica, no país. Metodologicamente, essa é uma investigação historiográfica, elaborada a partir do entroncamento da História, da História das Ciências e da História da Psicologia, com uso de estratégias do gênero biográfico e biografia contextualizada, por meio do emprego de ferramentas para ler os dados e os conceitos advindas da História das Ciências, da compreensão de circulação dos fatos científicos de Bruno Latour e controvérsias, advindas dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia – ESTC. Foram utilizados ainda, aspectos da pesquisa teórico-conceitual e, por fim, lançamos mão da História Oral. Para análise e interpretação das fontes primárias foi proposta a ideia de análise documental e o uso do software Iramuteq. Utilizamos como fontes primárias textuais produções de autoria de Elso Arruda publicadas nos três períodos de veiculação dos Arquivos Brasileiros de Psicologia; 06 livros de autoria de personagem, configurando o recorte temporal de 1940 a 1985; e acessamos o acervo digital brasileiro – Hemeroteca; além de fontes orais por meio da entrevista de cinco ex-alunos e colegas de trabalho de Elso Arruda quando diretor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. As fontes sinalizam sua circulação no campo dos saberes Psi. Sugeriram ainda que já havia rumores sobre o anseio de uma reforma psiquiátrica na década de 1960 no Brasil. Parte desses debates apresentava uma discussão no campo da Psicologia Clínica como o eixo de intersecção entre os saberes Psi, a saber, Psiquiatria e Psicologia. Nessa perspectiva, as fontes sugerem influências das propostas da antipsiquiatria e do antidiagnóstico nos debates entre os saberes Psi, como também o uso da Antropologia e da Fenomenologia Existencial para “ler” o sujeito “desajustado”. Sinalizam também controvérsias entre dois modelos psiquiátricos produzidos da tensão entre psiquiatras que nominavam de “modernos”, na contramão dos que seriam “clássicos”, denominados por Arruda como modelo “psiquiátrico clássico” e modelo “moderna psiquiatria”. Identificamos um alargamento do modelo “psiquiátrico clássico” por parte de alguns psiquiatras envolvidos com o campo das práticas da clínica Psi, ao absorver aspectos psicológicos (subjetividade) e sociais. Tal alargamento produziu controvérsias também no campo da assistência à saúde mental, com foco na prevenção, reabilitação e promoção. Identificar essa expansão sinalizou aspectos da conformação da Psicologia Clínica como campo de atuação operando de forma auxiliar da atuação do psiquiatra, oferecendo métodos e técnicas psicológicas para diagnósticos e tratamento psiquiátricos. Por fim, a pesquisa permitiu inferir que a Psicologia clínica teve sua conformação relacionada diretamente com a práxis clínica da Psiquiatria.
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Pensar a Psicologia do tempo presente demanda olhares para a Psicologia do passado e as respectivas diversidades de suas áreas. Tal é a principal tarefa da psicóloga-historiadora. Historicamente, a Psicologia guarda estreitas relações com a Fisiologia, especialmente por meio das teorias comportamentais denominadas behaviorismos, sendo duas delas o condicionamento clássico de Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) e o condicionamento operante de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990). O primeiro era fisiologista e o segundo desenvolveu seus estudos comportamentais a partir de um departamento de Fisiologia. Nesse sentido, estudos históricos na interlocução entre as duas áreas, mormente focalizadas nos behaviorismos, parecem promissores para ambas. No Brasil, um dos fisiologistas pioneiros em estudos de Fisiologia e comportamento foi o argentino naturalizado brasileiro Miguel Rolando Covian (1913-1992), que chegou ao país em 1955 e desenvolveu seus trabalhos na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, vinculada à Universidade de São Paulo (USP). Covian chamava de interrelação cérebro-mente o que contemporaneamente denomina-se neurociências comportamentais. Após seu falecimento, sua “herança” é atualmente denominada Coleção Miguel Rolando Covian e está acondicionada no Centro de Memória e Museu Histórico da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Parte dessa coleção compõe as fontes primárias desta pesquisa arquivística. Ao todo, foram digitalizadas 1.082 páginas e tabuladas 704. As categorias para tabulação dos dados foram: tipo; autoria (nome e localização); destinatário (nome e localização); data; timbre do documento; pessoas mencionadas; fundos de financiamento; menções a teorias comportamentais; menções a modelos experimentais; resumo do conteúdo; forma de apresentação; e idioma. A amostra documental abriga diversas temáticas e, dentre estas, receberam destaque, nesta tese, (1) a relação mestre-discípulo entre Covian e Bernardo Alberto Houssay (1887–1971), seu orientador na graduação em Medicina; (2) a articulação de Houssay no fomento a intercâmbios de saberes entre grupos de pesquisa da América Latina, tanto entre si quanto com países do Norte Global, em especial os Estados Unidos da América; (3) as ações de financiamento estadunidenses aos grupos ligados a Houssay, principalmente via Fundação Rockefeller; e (4) as trocas de conhecimentos e práticas experimentais, com menções a teorias comportamentais. Os conteúdos apresentados via tabulação nesta pesquisa possibilitam pensar historiografias em variados campos, com destaque para as Neurociências Comportamentais, reafirmando Covian como um personagem promissor para a História das Ciências, em geral, e para a História da Psicologia, em especial.
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Nossa pesquisa tem como objetivo compreender o período inicial da trajetória intelectual de Celso Pereira de Sá, a partir da análise documental da dissertação e tese do autor, contextualizadas em sua trajetória de vida. Especificamente, visamos mapear os principais conceitos debatidos pelo autor tanto em sua dissertação quanto em sua tese; bem como, identificar a rede de autores com quem Sá debate nestes textos para verificar afinidades, apropriações e afastamentos; também debater aspectos biográficos de Sá correspondentes ao período de mestrado e doutorado do autor. A pesquisa é ancorada na perspectiva historiográfica, apropriando-se de contribuições da História Social da Psicologia, da História Intelectual e dos Intelectuais e na História Oral. Para tanto, utilizamos fontes primárias documentais e orais, que passaram por análise de seus conteúdos. Os resultados indicam que sua trajetória intelectual revela uma proposta singular: a proposição de uma Psicologia Social Comportamentalista Radical, capaz de operar criticamente sobre as contradições sociais brasileiras. Essa proposta consiste em uma interface entre a Análise do Comportamento e as Ciências Humanas, orientada por valores de justiça social, popularização do conhecimento e enfrentamento das desigualdades estruturais. Como consequência desta pesquisa, também foi notado o distanciamento de Sá das comunidades científicas comportamentais de sua época, o que pode refletir na maneira como Sá se apropriou de conceitos, discursos e convergências da maneira distinta da comunidade da época. Identificou-se ainda que Sá compreendia o contracontrole social não apenas como categoria descritiva, mas como instrumento político-pedagógico de emancipação, visível, por exemplo, em sua Cartilha de Contracontrole Social.
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Este livro que você tem nas mãos é mais uma produção do Laboratório de História e Memória da Psicologia – Clio-Psyché, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Trata-se da versão textual de trabalhos selecionados dentre aqueles que foram apresentados no XV Encontro Clio-Psyché/VI Congresso Brasileiro de História da Psicologia, em agosto de 2022. Compõem este livro 21 capítulos escritos por 37 autoras e autores, provenientes do Brasil, da Argentina, da Colômbia e da Espanha. Tais textos abrangem uma grande diversidade temática, perpassando história, ciência, psicologia, psicanálise, psiquiatria, metodologia, gênero, política, guerra, religião. Porém, une estes textos a preocupação com a pesquisa e divulgação de conhecimento histórico sobre a Psicologia e demais saberes psi. Em tempos marcados por muitas lutas em torno dos sentidos do passado e da memória histórica, é nosso desejo que as narrativas historiográficas que compõem este livro contém e semeiem "novas histórias", que animem e lancem luz para as lutas da Psicologia, da ciência e da sociedade brasileira no presente.
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